REFLEXÃO
A parábola do joio no meio do trigo mostra que a sociedade é um campo de semeaduras diferentes e contrastantes. O semeador cumpre o dever de semear boa semente: é o discípulo de Jesus que continua firme na prática da justiça . Contudo, no meio do terreno cresce também o joio (a injustiça). Isso não é fruto de um dualismo absoluto, pois o inimigo também semeia. O inimigo são pessoas e estruturas injustas que crescem junto com a semente do Reino. Aí reside a perplexidade das primeiras comunidades cristãs. Elas se perguntavam: se, de fato, Jesus é o Deus-conosco, o mestre da justiça. Como se explica o crescimento da injustiça na sociedade? Por que ele não intervém, arrancando tudo de uma vez? Daí nasce o desejo de “fazer justiça com as próprias mãos”: “Quer que arranquemos o joio?”
A resposta do dono da colheita é clara: só a Deus cabe fazer a triagem. Essa triagem não se realiza agora, mas depois (a colheita, na Bíblia, é frequentemente usada como símbolo do fim do mundo). Se a separação fosse agora, correr-se-ia o perigo de arrancar o trigo junto com o joio, pois, quando pequenos, são muito parecidos, mas, no momento da espiga, a diferença fica evidente. Só Jesus tem o direito de ordenar a seleção final, cujo critério de distinção serão os frutos (prática da justiça ou prática da injustiça). Por ora a comunidade deve esperar. A parábola, portanto, quer transmitir esta mensagem: a justiça que faz surgir o reino de Deus se decide num campo de lutas, numa sociedade conflituosa. Aos discípulos de Jesus não cabe fazer justiça com as próprias mãos e critérios. A eles compete semear…
Contudo, ficam no ar duas questões: 1. O reino de Deus não se mostra, assim, impotente diante do mal? 2. Não existe nenhuma possibilidade de subversão, de forma que o bem transforme o mal? As duas parábolas seguintes tentam responder a essas questões.
O Reino cresce a olhos vistos
Os adversários de Jesus se escandalizavam diante da aparente impotência dele e de sua prática. Na concepção deles, o Reino deveria ser instaurado à força. A parábola da semente de mostarda trabalha com os termos menor e maior: a menor de todas as sementes se torna maior de todas as demais plantas, a ponto de abrigar em seus ramos os pássaros com seus ninhos. Mateus diz que o grão de mostarda foi semeado no campo, e não na horta, como em Lucas. É uma referência ao campo que é o mundo, no qual cresce o reino de Deus.
Uma semente de mostarda num campo é a síntese da pequenez e insignificância dos inícios da justiça que faz surgir o Reino. Mas a semente de mostarda se torna árvore, atingindo, segundo a espécie, quatro ou nove metros de altura! E os pássaros (que representam, aqui, as nações) se aninham na árvore do Reino, encontrando vida e segurança. Assim será a justiça do reino de Deus, garante Jesus. Esperem para ver sua força. Ele sobressairá no campo e será ponto de encontro entre todos os povos!
O Reino é revolucionário
O Reino é revolucionário
A parábola do fermento contrapõe o pouco ao muito, mostrando como o primeiro subverte o segundo. De fato, três porções de farinha perfaziam cerca de 42 quilos. O punhado de fermento é insignificante diante de tanta farinha! O fermento some no meio dela (o texto afirma, literalmente, que a mulher esconde o fermento na farinha), mas a transforma e subverte completamente. Assim, afirma Jesus, é a justiça que faz surgir o Reino. Um dia vai levantar toda a humanidade, pois tem poder de contagiar, transformar e levantar toda a massa. A justiça do reino de Deus tem poder revolucionário.
Em Israel, fazer pão era tarefa confiada às mulheres. E o faziam todos os dias, pois o pão era o alimento básico. O Reino, portanto, é confiado aos pequenos, pobres e marginalizados e é compromisso diário.
Jesus revela o mistério do Reino
Jesus anuncia o Reino em parábolas. Tem-se a impressão de que o povo não entendia o sentido delas. Que função teriam, então? Mateus cita o salmo 78,2, atribuindo-o ao profeta (no sentido de que todo o Antigo Testamento é profecia que leva a Jesus ou, talvez, porque esse salmo era atribuído a Asaf, considerado profeta, cf. 2Cr 29,30). A função das parábolas é revelar o mistério escondido anteriormente, mas agora tornado manifesto na prática de Jesus. É nele que o Reino assume sua verdadeira feição e forma. Aceitando-o, entra-se no Reino.
ORAÇÃO
PAI AMADO, a “explicação” da parábola do joio no meio do trigo é fruto do esforço das comunidades em olhar para dentro de si próprias. É hora de olhar para dentro de nós mesmos e de nossas comunidades, pois o ambiente é outro, a própria ótica e os destinatários da “explicação” são diferentes. A explicação acentua o contraste entre os filhos do Reino e os filhos do diabo. A boa semente são os filhos do Reino, ao passo que o joio são os que fazem os outros pecarem e os que praticam o mal . O fato é que os injustos vão ranger os dentes de raiva e desespero, ao passo que os justos vão brilhar como o sol no teu Reino de amor .
És um Pai justo! Teu Filho ainda nos adverte: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça” . Esse é seu apelo para o discernimento no agora da nossa história: a vitória final pertence a Jesus e seus seguidores. Ajuda-nos, Pai, a não esmorecer na luta, para que o Reino se manifeste mediante a prática da justiça! Amém
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